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Posted by on Jan 5, 2016 | 1 comment

Foodcycle: desperdício de comida e pobreza alimentar

Encontramos o Foodcycle em Norwich, uma cidade no leste da Inglaterra. Dave me apresentou a iniciativa e me disse “vamos, você vai gostar!”. Ele vai jantar ali quase toda sexta-feira e como adora comida e tudo o que a rodeia, é um apaixonado pela iniciativa. Enquanto escrevo este artigo já posso contar que é a minha quarta ida ao Foodcycle e como é uma iniciativa muito à  “Buscant Llavors”, decidi escrever um pouco sobre ela.

Enquanto estamos esperando sentados na parte de fora do Friends Meeting House vão chegando bicicletas carregadas de comida. Os voluntários do Foodcycle passaram as últimas horas recolhendo comida dos supermercados. Às sextas-feiras os funcionários de vários supermercados os esperam com a comida que sobrou e que não poderão vender.

Dentro da Friends Meeting House há uma cozinha que se poderia qualificar de média, com espaço para mais ou menos umas 10 pessoas que vão separando, descascando e cortando os vegetais que vão chegando transportados nas bicicletas. As panelas já estão fervendo com as batatas que chegaram há uns minutos. O menu de hoje tem sopa de batata, melão e salada de entrada. Depois cuscuz com refogado de berinjela, abobrinha e legumes variados, acompanhado de salada de rúcula com tomate. De sobremesa torta de chocolate com abacaxi e salada de frutas. Como sempre, menu vegetariano ou vegano.

Como acontece todas as sextas entre as 16h e as19h, a cozinha se abre ao público, vários voluntários colaboram para que a comida que ia ser jogada no lixo pelos supermercados sirva para alimentar umas 50 pessoas desde sem-tetos a estudantes. Gente jovem com camisetas da universidade se misturam com gente idosa em estilo anos 70 e casais com filhos pequenos. Rowan, o coordenador da iniciativa, nos conta que o objetivo do Foodcycle é ser um lugar de inclusão social. De fato, não é a primeira vez que Dave e eu saboreamos não só a comida mas também as conversas ao redor dela com pessoas tanto da nossa idade (entre 25 e 35 anos) como mais jovens e mais velhas. Também é fato que a situação econômica das pessoas que vêm comer aqui é muito diversificada e isto também contribui para fazer do projeto um lugar de desestigmatização. Dave e eu nos surpreendemos quando uma das pessoas que frequentam o local regularmente nos conta que nem imaginava que a comida era preparada com restos dos supermercados. Conversando com as pessoas ficamos sabendo que muitos consideram o local como uma cantina a mais, bem, uma cantina mais comida deliciosa. Aqui tem gente que vem para contribuir para a sustentabilidade do planeta (aproveitar comida) e gente que vem simplesmente para comer um bom prato quente.

O Foodcycle existe em várias partes da Inglaterra. Há 21 centros no país tocados por voluntários. A coordenação e a logística dos centros fica por conta de 12 pessoas que trabalham para a ONG e que também se encarregam de promover a iniciativa por toda a Inglaterra. Para pagar seus salários há um departamento de captação de recursos que se encarrega de conseguir subvenções para que um pequeno grupo de pessoas possa dedicar-se em tempo integral à coordenação e viabilização desta iniciativa em todos os lugares onde seja necessária. Além disso, nos explicam, o Foodcycle se beneficia de três tipos de doação: a comida dos supermercados, o tempo dos voluntários e o espaço (cozinha e refeitório) sem uso que é doado em vários edifícios. Estes três tipos de doações são suficientes para que consigam atingir em um só lugar dois males comuns na Inglaterra (e em muitos outros países): o desperdício de comida e a pobreza. A iniciativa também aceita doações de dinheiro que utiliza para comprar panelas e utensílios para as cozinhas como panos de prato ou detergente.

A parte humana deste projeto é o que mais me fascina. De um lado, diferentemente de outras iniciativas que buscamos como a Buscant Llavors, esta não apresenta uma alternativa ao sistema, pelo contrario, se beneficia da insustentabilidade do sistema alimentar global e industrial imperante, mas com seu trabalho também o denuncia e serve para criar consciência.  Rowan e Lucy nos contam que apesar de adorarem estarem envolvidos em Foodcycle eles prefeririam que não fosse preciso que existisse. O ideal, comentam, seria que todos comêssemos comida local e orgânica e que não se jogasse alimento no lixo.

Uma visão crítica seria argumentar que esta iniciativa é apenas um curativo sobre um problema grave real das sociedades comandadas pelo modelo capitalista. Que os esforços deveriam ser dirigidos para erradicar o problema desde sua base: o consumismo, cultivar e consumir somente produtos locais, fazer lobby com os grandes supermercados para que não desperdicem alimentos, construir alternativas para que não dependamos de grandes cadeias de supermercados… Além disso, dar comida à Foodcycle não acaba sendo uma maneira dos gigantes do mundo capitalista melhorarem a sua imagem? Com certeza limpam um pouco a sua imagem e a sua consciência e talvez até usem isso como marketing. De qualquer modo, a luta para encontrar soluções ao sistema de produção, distribuição e consumo de alimentos pode continuar paralela ao aproveitamento das brechas do sistema para incentivar a inclusão social das pessoas que vivem com poucos recursos econômicos e as estratégias para diminuir o desperdício de comida. A luta, em minha opinião, deve ir em muitas direções. Tenho amigos que começaram a cultivar sua própria horta orgânica e que já têm uma pequena comunidade de consumidores orgânicos locais. Eles mesmos também vão às vezes jantar no Foodcycle. Para mim, este sistema está tão corrompido que precisamos também de soluções temporárias ao mesmo tempo em que criamos soluções a longo prazo.

Outra crítica possível é: o que acontecerá se um dia não existir mais o Foodcycle? Não estamos ajudando a empoderar as pessoas e podemos estar criando dependência. Este ponto de vista dá muitas voltas em minha mente enquanto saboreio o delicioso refogado de legumes e converso com a mulher sentada ao meu lado, que, com dificuldade para falar porque já tem uma idade avançada, me conta coisas de sua vida. Enquanto conversamos percebo que este espaço é de fato um lugar de socialização importante. Não sei até que ponto socializar ajuda a que alguém se sinta empoderado, mas o que observo é que cerca de metade das pessoas que vêm aqui faz parte de uma comunidade de pessoas com dificuldades econômicas e muitas se conhecem nas sextas-feiras, conversam e compartilham histórias de vida. Na minha opinião vir aqui os ajuda não só por comer gratuitamente, mas também porque têm um espaço onde podem compartilhar suas histórias e discutir sobre os temas que são importantes para eles. Como é a minha quarta vinda aqui, já comecei a conhecer algumas pessoas, de forma que quando vou buscar o meu prato principal Hazel me saúda e conversamos um pouco. Hazel deve ter uns 30 anos de idade, é professora de inglês e vem aqui às sextas para curtir o Foodcycle. É um prazer conversar com ela.

Quando volto de buscar a sobremesa outra pessoa se assomou à nossa mesa e conversamos um bom tempo sobre religião e sobre seus filhos que já não vivem em Norwich há muito tempo. Discuto outra vez com meu espírito crítico que, como sempre, quer impor sua opinião. Quando o escuto o agradeço e lhe dou razão em seus argumentos, mas também lhe conto que a vida não é perfeita e que as teorias acadêmicas e críticas são necessárias e que devem ser aplicadas paralelamente. Na prática, Norwich é muito melhor para muita gente graças ao Foodcycle.

Para mais informações (em inglês): http://foodcycle.org.uk/ o http://foodcycle.org.uk/location/norwich/

Para ficar sabendo mais sobre temas relativos à comida recomentamos os seguintes documentários:

  • Dive: https://www.youtube.com/watch?v=3-NehFkQJ1M
  • Food matters: http://www.idocumentales.net/ver-food-matters-online

Traduzido por Diana Figuereido e Letícia Gomes

Veja as fotos desta inciativa abaixo:

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Saiba mais sobre esta iniciativas em:

http://foodcycle.org.uk/

1 Comment

  1. Whoever wrote this, you know how to make a good arecilt.

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